terça-feira, outubro 22, 2013

É hora de trocar o shampoo


Quem acompanhava os blogues antigos (-- todos fechados, todas as postagens excluídas, uma verdadeira limpa --) sabe que em 2011 eu aderi ao vegetarianismo. E o vegetarianismo mudou minha vida drasticamente. 
Primeiro, aboli as carnes; depois, aboli ovos e leite. Depois caí em tentações e voltei à errante vida de um ovo-lacto-vegetariano (pessoa que consome leite e ovos, mas não consome carnes), inclusive por causa das viagens que fiz para o exterior. Agora voltei ao autêntico vegetarianismo, também conhecido como vegetarianismo estrito ou "veganismo". Alguns pontos: 

1) É possível se alimentar muitíssimo bem excluindo tudo que for de origem animal da sua alimentação. É possível conseguir todos os aminoácidos essenciais (aqueles que o corpo não produz e resgatamos por meio dos alimentos) se você come o casal arroz e feijão, e é possível, sim, conseguir de verduras e legumes a quantidade de proteína necessária ao organismo. Muitas das pessoas que têm a fingida preocupação com a saúde (e questionam: "e as proteínas?", "e os aminoácidos?", "e a sua saúde?") são pessoas que nunca tiveram uma real preocupação com alimentação balanceada ou com a importância da realização de atividades físicas e aparecem com suas fanfarronices achando que estão argumentando com maestria. Não estão. Fingir uma preocupação com a *questão saúde* como pretexto para não encerrar a comilança de carne não cai bem a esse populacho que vive se entupindo de comidas que não foram pensadas. O vegetariano deve pensar sua alimentação. O onívoro come o que dá na telha sem precisar se preocupar, pois deve haver saúde em qualquer das coisas que ele ingere. For sure

2) Eu não me alimentei à vegana quando estava viajando porque fui uma sacripanta. Em vez de andar algumas quadras para encontrar restaurantes veganos nas capitais ou de buscar alimentos bonitos em feiras, eu fui a pizzarias e pedi pizzas without meat, mas recheadas de queijo -- que deveria aparecer num dicionário realista hipotético como "alimento derivado do leite, que é resultado do estupro de vacas que dão à luz bezerros que muitas vezes são jogados no lixo logo que nascem". (Essas vaquinhas sorridentes que aparecem nas nossas caixinhas de leite são produzidas por sarcásticos que trabalham para a agência de publicidade Nationalsozialismus.) Não estou dizendo que é fácil viajar sendo vegetariano. Obviamente é muito mais complicado do que viajar comendo cadáveres e pus de animais, coisas que estão por toda parte. Mas não está certo agir de maneira errada porque o certo é mais trabalhoso. Aliás, não é nada louvável agir de modo correto quando é fácil agir de modo correto, não é? Não estou dizendo que eu mereça louvor se atravessar a cidade para achar um restaurante ético, mas a gente se gabar de fazer o certo quando o certo está ali se esfregando nas nossas fuças... é patético. Por isso, o que é de valor é muitas vezes elaborado, e mesmo sendo elaborado devemos fazer questão de agir buscando o que é de valor. Ou viraremos pacóvios como todos esses outros humanos que tanto desprezamos e vão sobrevivendo por aí sem sentir nenhuma ânsia de sentar numa montanha para pensar. Eu gosto de pensar o que estou fazendo com a minha vida, mesmo que gradualmente, e é por isso que é hora de trocar o shampoo. 

Vejam vocês que sou uma pessoa de cabelos louros e secos e crespos, mas nunca me importei muito com as descrições "para o cabelo x" dos shampoos. Comprava os que não fugissem demais à minha realidade capilar e tivessem um aroma agradável (meu nariz é sensível e alguns cheiros fazem com que ele fique inchado -- imagino que seja uma alergia não diagnosticada). Um dos shampoos que eu comprava (porque estava sempre mudando de shampoos) era aquele da Johnson&Johnson para crianças, um com camomila, "para cabelos claros". Eu já sabia que essa marca é cruel em seus testes, mas nunca tinha parado para realizar um pensamento longo e uma mudança de conduta consumidora. Até o desabrochar de uma pétala em meu cérebro: "no more tears - chega de lágrimas" -- quantos coelhos ficaram cegos para que nossos bebês ou para que nossas Barbaras tomassem seus banhos sem temor de que uma espuma de shampoo caísse nos olhos e provocasse ardência? 
-- "Mas agora vamos passar a comprar shampoos que machuquem os olhos de nossos filhinhos?" 
Ora, a população pobre, que é vasta, não compra J&J para passar nos cabelinhos cacheados de seus rebentos -- e ninguém deve achar que diariamente milhares de bebês pobres estão derramando more and more tears porque os pais descuidados não compraram shampoos adequados para bebês. A questão é saber lavar a cabeça da sua criancinha, meu bom pai, minha ética mamãe, porque não é justo que coelhos -- esses que vocês consideram fofinhos nos protetores de telas, e nas historinhas infantis são amigos que comem deliciosas cenouras croc-croc -- sofram e padeçam porque vocês não sabem lavar a cabeça de uma criança com mais habilidade ou porque Barbara quer manter suas mechas loiras naturalmente. 

Portanto, a partir de agora pretendo usar apenas marcas que não testam em animais, e não só em matéria de shampoos. Mas continuando a falar de shampoos, recomendo os shampoos da Phytoervas, que além de não testarem em animais, não contêm ingredientes de origem animal. E nem sal. São shampoos mais caros do que os outros disponíveis no mercado, mas por que não pagar alguns míseros reais a mais por um produto ético? 
Você compraria os shampoos de uma marca nazista só porque ela é mais barata? Bem, com o número alarmante do holocausto animal que temos no mundo há milênios, seria melhor comprar de uma marca nazista do que comprar de uma marca que sacrifica bilhões de animais para finalidades fúteis. Chega de dar dinheiro para psicopatas. 


Coelhos usados para testes ficam assim para que não possam se coçar nem se defender das substâncias que colocam nos olhos e nos corpos deles

Nossos shampoos já cegaram muitos coelhos


Ainda na questão animal para que muitos antigos leitores que só me viam falando de Schopenhauer (vegetariano, aliás, tim-tim!) resmunguem "xii, está numa chatérrima fase politizada", penso que todos deveríamos avaliar que toda mudança é precedida de uma cogitação e de um desenvolvimento. A vida sem frango parece difícil? Pesquise como os frangos são tratados nas granjas e pese se vale mesmo saber que há tanto sofrimento em campos de concentração animal só por causa de um capricho do paladar. Analise, também, a mudança de visão que tivemos no decorrer da história. Já foi natural a mulher ser considerada inferior. Hoje, alguém que levante um pensamento como este é considerado um obtuso. Já foi natural ter alguns escravos guiados por chicotes. Hoje, os negros são livres. Infelizmente muitos negros e muitas mulheres -- os marginalizados do passado -- não se compadecem da situação dos marginalizados de hoje e não veem que os animais estão numa situação em que eles já estiveram. 
Tirar os animais de nosso prato é um passo importantíssimo para libertá-los da escravidão. Há sempre mais para se fazer, é claro, e circula pela internet uma asquerosa montagem feita por ignorantes e compartilhada por gente mais ignorante ainda dizendo que o veganismo é uma ilusão por ser impossível encontrar uma pessoa cem por cento vegana. Devemos não fazer nada só porque não podemos fazer tudo? Ou você mora pelado no meio do mato ou esbalda-se com carnes e casacos de pele? Qualquer ação já é alguma coisa. E qualquer começo pequeno pode evoluir e transformar um ser humano tapado num sujeito que realmente pensa o que está ao seu redor. É lamentável que algumas pessoas matem animais para agradar ao paladar por alguns minutos, é lamentável que algumas pessoas matem animais por causa "das tradições de comer churrasco". Uma pessoa que não repensa seus hábitos, que é totalmente refém de uma cultura como essa -- essa pessoa não pode se considerar inteligente. Assim como não é inteligente alguém que diz "não quero saber porque isso vai estragar o meu jantar" e tampa os sentidos para a dor animal que ocorre todos os dias e está bem divulgada na internet para quem quiser se informar. 

Por último, para encerrar esse assunto por enquanto, o clã Phoenix. Os Phoenix são uma família de artistas, principalmente, que adotou o veganismo como estilo de vida. Os Phoenix mais conhecidos são Joaquin (que está em filmes como Gladiador, O Mestre, etc.) e River (conhecido pelo filme Conta Comigo), que morreu de uma overdose aos 23. O casal Phoenix era hippie e vegano: passaram o ensinamento sobre respeito aos animais para os cinco ou seis filhos e até hoje esses filhos (os vivos) seguem os passos dos pais. Acho fabuloso o fato de nenhum dos filhos ter se desvirtuado por más influências ou mesmo pressões sociais/midiáticas. Joaquin, que é o mais conhecido dos filhos Phoenix, narra o documentário "Terráqueos", que explica de maneira séria e pungente o que acontece com todos os tipos de animais no mundo. É de chorar, mas é para gerar mudanças e não somente coriza na uma hora e meia de filme. Eu gostaria muito que todo mundo tivesse oportunidade de ver esse documentário que é um genuíno rito de passagem. Dada a oportunidade, saberíamos quem são os humanos humanitários e quem são os fracos, falsos, pusilânimes que merecem nosso desprezo -- pois é preciso ter muito sangue frio para continuar comendo e usando animais depois de assistir a esses fatos. É possível ver online. Eis o link: http://www.terraqueos.org/
"Seja a mudança que você quer ver no mundo". (Dalai Lama ou Gandhi, há divergências). [Atualização: Dalai Lama é aquele conhecido que defendia Mao Tsé-Tung, segundo entrevista que li recentemente. Não dá para citar alguém assim.] Boa sessão.

Na próxima postagem, um rolé em Paris. 

Um abraço,